Itália anula extradição de Zambelli e aponta Moraes como vítima e juiz
Corte italiana identificou que o ministro do STF acumula ao mesmo tempo o papel de vítima dos crimes imputados à deputada e o de condutor do processo penal
Um tribunal italiano publicou decisão que anula o processo de extradição da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) ao Brasil. O documento aponta como fundamento central um conflito de interesse: o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), figura simultaneamente como vítima dos crimes atribuídos à parlamentar e como o magistrado responsável pela condução do processo penal contra ela na Justiça brasileira.
A corte italiana concluiu que a acumulação das posições de vítima e de juiz por um mesmo agente viola o princípio da imparcialidade, amplamente reconhecido em tratados e convenções internacionais de direitos humanos. Com base nesse raciocínio, o pedido de extradição encaminhado pelo governo brasileiro foi declarado inválido pela Justiça italiana.
O caso Zambelli
Zambelli deixou o Brasil após o STF decretar sua prisão preventiva no âmbito de investigações que apuram, entre outros pontos, a suposta participação da deputada em um esquema de acesso indevido a sistemas informatizados de órgãos públicos. As apurações envolvem o alegado uso de um hacker para acessar sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do próprio STF — contexto no qual Moraes aparece como um dos magistrados supostamente atingidos pelas invasões, o que o coloca na condição de vítima dentro do mesmo processo em que atua como relator.
As investigações têm como pano de fundo os ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília, ocorridos em 8 de janeiro de 2023. A parlamentar nega envolvimento nos episódios e contesta a legalidade das medidas judiciais aplicadas contra ela.
Impacto da decisão italiana
Com a anulação do pedido extradicional, Zambelli permanece em território italiano sem perspectiva imediata de ser transferida ao Brasil para responder pelas acusações perante a Justiça brasileira. A decisão não encerra definitivamente a questão: o governo brasileiro tem a possibilidade de reformular o pedido ou buscar outras vias diplomáticas e jurídicas para viabilizar o retorno da parlamentar ao país.
A relação entre Brasil e Itália em matéria de extradição é regida por tratado bilateral que prevê a possibilidade de recusa quando o Estado requerido identificar violações a garantias processuais fundamentais. O argumento do conflito de interesse acolhido pela corte italiana se enquadra nesse tipo de exceção prevista no acordo.
Contexto jurídico e político
Alexandre de Moraes é ministro do STF desde março de 2017 e exerceu a presidência do TSE no ciclo eleitoral encerrado em 2022. Ele é relator de diversas investigações relacionadas aos eventos de 8 de janeiro de 2023 e aos inquéritos que apuram suposta articulação contra o Estado democrático de direito. A situação de acumular a condição de vítima e de relator em processos correlatos tem sido contestada por advogados de defesa no Brasil, embora o plenário do STF não tenha reconhecido impedimento formal ao ministro nesses casos até o momento.
Zambelli representa o estado de São Paulo na Câmara dos Deputados. A prerrogativa de foro dos parlamentares federais, em matérias de competência do STF, não impede a decretação de prisão preventiva ou outras medidas cautelares por decisão da própria corte, que detém jurisdição sobre membros do Congresso Nacional em determinadas hipóteses previstas na Constituição Federal.